“O incêndio”: texto de orelha

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Para boa parte da crítica literária, a ficção brasileira contemporânea teria suas raízes no solo urbano da vida agitada e violenta das metrópoles. Tais histórias testemunhariam as mudanças vivenciadas pelo país nas últimas décadas que alteraram radicalmente a sua feição rural e provinciana. Esse postulado, no entanto, não se aplica ao universo romanesco de Alexandre Staut, cuja força e intensidade, pelo contrário, advêm do resgate da delicadeza como princípio ordenador de uma prática escritural.
Assim como nos “afetos arcaicos” de João Carrascoza, os romances de Staut investem no recolhimento, na atenção aos detalhes e na suavidade do ritmo narrativo, aludindo aos espaços sociais em que se inserem: o universo do interior do país.
Tal preocupação já se observava em Um lugar para se perder (Dobra Literatura, 2012), ganhando especial destaque em O incêndio. Nestas páginas, deparamo-nos com uma das velhas paixões de Alexandre Staut: a literatura. Narrado por um bibliotecário, este romance evoca os últimos suspiros de uma biblioteca decadente, prestes a ser incendiada. Aqui, o universo dos livros é pretexto a uma viagem literária que coloca em relevo toda a complexidade de nossa banal existência: a camaradagem dos ambientes das salas de aula, nossas frustrações adolescentes, a descoberta da sexualidade e do desejo homoerótico, e, por fim, a paixão pela leitura.
A estrutura mise en abyme conduz grande parte do romance, estabelecendo um constante diálogo entre os mundos ficcional e realístico – cujas fronteiras acabam por se romper. Dessa fratura surge o olhar crítico do autor, que por uma escrita do cotidiano – apurada e minuciosa – não perde de vista o contexto sócio-histórico contemporâneo ao discutir assuntos espinhosos do mundo atual, como por exemplo “a caretice que tomou conta do país e o descaso com nossas instituições culturais”. Livro do desencanto pelo atual estado das coisas e do encanto pelo poético, O incêndio revela toda a complexidade e a aspereza de nossa existência, sempre à flor da pele.
Leonardo Tonus

 

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