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Paris-Brest (Editora Companhia Nacional, 2016, 209 páginas) O livro traz memórias afetivas das cozinhas nas quais o autor trabalhou – como cozinheiro -, na França, entre 2002 e 2005, seguidas de um pequeno estudo da alimentação na Idade Média no país.
~ Prêmio ‘Best French Cuisine Book’ do ‘Gourmand World Cookbook Awards’ em 2016 ~
~ Finalista do ‘Best of the Best World Cookbook’ do ‘Gourmand World Cookbook Awards’, em cerimônia a se realizar em Yantai, China, em maio de 2017 ~
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Fosse um belo e saboroso prato, como tantos que Alexandre Staut tem criado, este livro mereceria uma fartura de estrelas nos guias da boa mesa. Pode até ser visto assim, aliás, consideradas várias receitas que você encontrará aqui. Paris-Brest é mais do que um repositório de felizes achados culinários. Tem entradas para todo tipo de leitor.
Ei-lo, para começar, em L’Aber Wrach, minúscula localidade à beira-mar na Bretanha, ainda cru em língua francesa, mas já pilotando o fogão do restaurante, Le Patio Gourmand. Audacioso, acrescenta às joias da gastronomia francesa a sua moqueca de peixe, por ele batizada Poisson à la Brésilienne.
Como indissociável tempero da narrativa, o autor nos apresenta fascinantes criaturas às quais se ligou por amizade, entre elas, a Myriam, a Monique, o Pierre, legítimos personagens de romance.
A essa altura, encontra espaço para ampliar vivências não exclusivamente culinárias, mas não menos picantes. É quando o vemos incursionando à vizinha Plounérin, cidadezinha aonde vai saciar outras modalidades de apetite.
Esgotada a experiência na Bretanha, Alexandre vai com mala e cuia para Tours, às margens do rio Loire. A terceira escala será Arromanches-les-Bains, na Normandia, onde haverá de arrematar sua proveitosa aventura em terras de França.
Antes de mergulhar nas delícias que ele nos serve nestas páginas, convém lembrar que Paris-Brest é nome de um clássico da pâtisserie francesa, uma bomba recheada de creme e coberta de frutas ou amêndoas. Excelente escolha de título para um livro não menos saboroso. (Texto de orelha escrito por Humberto Werneck)
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A vizinha e a andorinha (Cuore, 2015, 33 páginas).  O infantil ganhador do ProaC, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, ilustrado pela artista plástica Selene Alge, traz as descobertas de um garoto sobre sua nova vizinha. A obra trabalha a “descoberta do outro” e o senso de alteridade.
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Um lugar para se perder (Dobra Literatura, 2012, 165 páginas). O romance ganhador do ProaC, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, tem como ponto de partida e inspiração a peça teatral Esperando Godot, de Samuel Beckett. Dois homens se encontram na praça de uma cidade perdida no mapa e travam uma discussão nonsense e interminável sobre a existência. Conforme Pipol, criador do site literário “Cronópios” _um dos mais conhecidos do Brasil_, o romance concede a Staut o título de o mais ‘felliniano’ escritor brasileiro da literatura contemporânea nacional.
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O protagonista deste segundo romance do escritor e jornalista Alexandre Staut é um homem conformado à rotina do trabalho anódino, em repartição pública, e à vida numa cidade provinciana, mesquinha. Enredado no cotidiano sem perspectivas, resta-lhe a companhia dos livros que retira na biblioteca municipal e contemplar o movimento das ruas, as conversas que se perdem no cotidiano, fofocas que se multiplicam como poeira, sempre a partir de um banco de praça.
Desenhar mapas e planejar viagens imaginárias não o conforta, mas só amplia a angústia sem remédio, que aos poucos vai corroendo seu espírito, minando os gestos mecânicos e o convívio apagado com colegas de trabalho, espremidos “em relações cordiais, quase matemáticas”, tão estranhos como os passantes que cruzam aleatoriamente seu caminho.
A situação desse personagem arredio, ensimesmado, muda inesperadamente com um encontro, na mesma praça onde costuma se refugiar. O homem acabara de deixar o asilo da cidade e queria uma informação de passagem, algo sem a menor importância. A curiosidade, no entanto, os aproxima e o narrador se vê capturado pela história do outro, por seus descaminhos, o corpo macerado por experiências dolorosas, a voz entrecortada pelas tragadas no cigarro de palha.
Superado o primeiro momento de rejeição, aquela figura misteriosa, esquisita, revelará segredos da pequena cidade, ocultos sob o manto tranquilizador da hipocrisia. O que parecia um encontro fortuito, torna-se um momento intenso de descobertas e transformações para o narrador. O contato e o confronto com o outro trará uma nova maneira de ver a si próprio e a existência enraizada naquela cidade.
Muitas são as provocações do escritor Alexandre Staut com esta narrativa envolvente e inquietante. A começar pela crítica ao comportamento acomodado e passivo de um cidadão comum, incapaz de virar o jogo da mesmice e assumir seu papel de sujeito. Por outro lado, está o desnudamento de uma sociedade conservadora, típica do interior brasileiro.
Como nas cidades fictícias de grandes autores latino-americanos – Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti – também ocorre neste universo aparentemente tranquilo idealizado por Staut a representação de nossas mazelas e belezas (Texto de orelha de Reinaldo Damazio).
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Jazz band da sala da gente (edição do autor, 2010, 156 páginas). A biografia romanceada do avô judeu do autor, Eduardinho Staut, músico da orquestra Pinhal Jazz e proprietário da funerária da cidade de Pinhal, SP, aborda a miscigenação cultural no Brasil de meados do século XX.
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Uma banda de jazz é a “sensação” de uma cidadezinha perdida no mapa, na década de 40. As notícias de uma guerra distante chegam a uma casa, neste lugarejo, por meio das ondas do rádio. Hitler comanda uma caça aos judeus do interior de São Paulo. Colonos italianos e a retaliação ao povo alemão. Pixinguinha toca seus choros e as cantoras de rádio soltam a voz. Cinema mudo com orquestra ao fundo. Santinhos, religiões, povos, culturas diversas, que formariam o que hoje é o estado de São Paulo, e o Brasil. Tudo isto está neste romance. Mas apenas como pano de fundo, pois, aqui, o que importa é a história de pessoas comuns, mais precisamente de uma família formada do encontro entre um flautista judeu e uma senhora italiana, na cidade paulista de Espírito Santo do Pinhal, num recorte de um ano – entre meados de 1945 e 1946.
A ideia deste romance ocorreu num momento em que o autor procurava dados concretos para compor sua bússola familiar. Sem encontrar a história do avô paterno – Eduardinho Staut, o músico em questão, que também era agente funerário da cidade e que comemoraria agora seu 110º aniversário – junto aos pouquíssimos personagens vivos que teriam convivido com este homem, percebeu que disporia de poucos detalhes da vida privada dos seus, conforme ele me diz. Resolveu então criar um passado para o avô. Sim, inventar uma história. Não só para o avô, mas para toda a família.
 Para tecer este retrato íntimo, comovente e, por vezes, tragicômico, o autor valeu-se de um dos poucos documentos existentes, que se relacionam ao personagem em questão – uma crônica escrita pelo jornalista Ubirajara Rocha no dia da morte do seu Eduardinho, que agora é republicada nas primeiras páginas do volume “Jazz Band na Sala da Gente”.
 A história que segue é contada aqui por um narrador que persegue o ponto de vista do filho mais novo do músico, o garoto Eduardo Luiz, que, em 1945, tinha seis anos.Ao fazer este retrato delicado da família, o autor transcende a história da vida privada e íntima dos seus, e acaba por traçar o retrato de uma época de transformações sociais e políticas no Brasil. Acaba por abordar a diversidade cultural do interior do país, que aqui nos chega por meio de sentimentos muito finos e diálogos engraçadíssimos.
 Um romance histórico que conquista pela narrativa habilidosa e pelas imagens poéticas de um tempo de guerra e caça às bruxas, mas com trilha sonora ao fundo. Que abram as cortinas, a jazz band vai começar a tocar. (texto de orelha de Geraldo Simões, historiador especialista em diáspora)
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